INTERROGAÇÕES INCONVENIENTES – Por José Fernando Magalhães (6)

 

 

 

Farmar a Aura

 

imagem IA

 

Confesso que quando ouvi a expressão pela primeira vez, fiquei alguns segundos parado, à espera de que o contexto me explicasse o que o vocabulário não conseguia. Farmar a aura. Cinco sílabas que soam a vídeo-jogo e a filosofia oriental ao mesmo tempo, e que não são nem uma coisa nem outra, ou são as duas, o que me é ainda mais perturbador.

Comecemos pela linguagem, que é sempre um bom lugar para começar quando se quer entender uma geração.

Farmar vem do inglês to farm. Na linguagem dos vídeo-jogos, significa repetir tarefas para acumular recursos, pontos ou experiência. Aura, neste contexto, nada tem de espiritual. É estatuto, presença, coolness, esse capital social invisível que faz com que alguém entre numa sala e seja imediatamente notado.

Farmar a aura é, deste modo, trabalhar deliberadamente para acumular prestígio social. Fazer coisas, ou encená-las, de modo a que aumentem a própria imagem perante os outros. Uma entrada aparatosa num grupo, ou uma provocação feita para ser filmada, ou ainda uma atitude estudada diante de uma câmara que pode nem estar ali. A linguagem dos vídeo-jogos passou para a linguagem da vida quotidiana, o que não é um acidente. É um sintoma.

Convém perceber.

A adolescência e a juventude sempre tiveram os seus rituais de afirmação. Sempre houve códigos de grupo, linguagem própria, exibicionismo, desafios, a necessidade urgente e por vezes dolorosa de ser visto e reconhecido pelos pares. Não há nada de novo nisso. O que mudou, e mudou de forma brutal, foi a velocidade, a visibilidade e a possibilidade de transformar cada comportamento em conteúdo. Nos meus tempos de adolescente, um gesto de coragem ou de irreverência durava o tempo de uma tarde e era testemunhado por meia dúzia de amigos. Hoje, dura para sempre e pode ser visto por milhares.

E aqui está a transformação que parece realmente significativa; a passagem da experiência para a sua representação.

Um jovem já não faz o que faz só porque gosta de fazer. Faz também, e sobretudo, porque aquilo produz aura. Uma roupa, uma atitude, uma provocação, uma determinada maneira de andar ou de ocupar o espaço público, uma fotografia, um vídeo, tudo se torna matéria-prima para uma construção de identidade que já não é apenas vivida, mas encenada e exibida. A audiência pode estar ali fisicamente; o grupo de amigos, os desconhecidos na rua; ou ser imaginária e digital, algures nas redes onde o like substituiu o assobio de aprovação.

Há uma economia informal da atenção que funciona com a precisão de um algoritmo.   E não por acaso, pois foi desenhada e rentabilizada por plataformas que lucram com cada fracção desse espectáculo.

Faço; os outros reagem; ganho estatuto; repito.

E o grupo amplifica tudo. Quando vemos magotes de jovens a ocupar o espaço público com aquela energia particular, ruidosa, exibicionista e ligeiramente desafiante, aquilo não é necessariamente uma soma de indivíduos. É uma personagem colectiva. O jovem sozinho pode não fazer determinadas coisas; integrado no grupo, fá-las porque a aprovação imediata dos outros se torna uma recompensa difícil de recusar.

Não é desvio. É transformação.

E convém dizê-lo claramente. Não estão todos assim. A maioria dos adolescentes e jovens não passa os dias a farmar aura de forma consciente e calculada. A adolescência e a juventude são também confusão, generosidade, idealismo, pesquisa genuína de si próprio. O que mudou foi o contexto em que tudo isso acontece, e esse contexto é novo para toda a gente, incluindo para eles, mas foi edificado e fornecido com a cumplicidade da vista grossa do mundo adulto.

O que me preocupa não é a expressão. As expressões passam, como passaram todas as gírias de todas as gerações antes desta. Daqui a cinquenta ou setenta anos, ainda teremos, aqui e ali, uns quantos sobreviventes a farmar a aura, da mesma forma que ainda temos um grande punhado de hippies, de punks e de góticos. O que me preocupa é a pergunta que está por baixo dela. O que acontece a uma geração quando a validação social deixa de ser apenas uma consequência do que fazemos e passa a ser um dos principais motivos para o fazer? Quando o estatuto não é um resultado da experiência, mas a razão dela?

Não tenho resposta. Tenho apenas a suspeita de que a pergunta é séria, e de que merece mais do que um like.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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